• Crônicas de São Paulo: um olhar indígena

    • Editora Callis
    • Autor(a) Daniel Munduruku
    • Premiação Prêmio FNLIJ 2005 Jovem
Monday, 26 August 2013 11:55

A terra dos meninos pelados

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De Graciliano Ramos. Il. Roger Mello. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1999. 61p. De Graciliano Ramos. Il. Roger Mello. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1999. 61p.

De Graciliano Ramos. Il. Roger Mello. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1999. 61p. 

 

A terra dos meninos pelados. Graciliano Ramos. Il. Roger Mello. 2ª ed. Rio de Janeiro:Record,1999. 61p.
(14 x 21 x 0,4cm - 120 gr.)

  • 1ª edição: 1937.
  • Projeto Ciranda de Livros/FNLIJ - (Ciranda 3) - 1984
  • Roger Mello foi indicado pela FNLIJ para ilustrar a edição alemã de A terra dos meninos pelados
  • Prêmio Monteiro Lobato, para livros de autor brasileiro publicados no exterior - Fundação Biblioteca Nacional - 1996.

PARECER 1

Escrita por Graciliano Ramos, em 1937, assim que sai da cadeia nos tempos sombrios do Estado Novo, A terra dos meninos pelados é uma narrativa para crianças com que o autor ganha o prêmio de literatura infantil do Ministério de Educação e Cultura. Conta a história de Raimundo, alvo das chacotas dos colegas por ser calvo e ter um olho azul, outro preto. Conformado a princípio com a situação, experimentando assinar-se Dr. Raimundo Pelado pelos muros, acaba resolvendo ir, certa hora, para a terra de Tatipirun, onde "todos os caminhos são certos" e se aplainam para ele passar. Em Tatipirun, embora muito diferentes entre si, os meninos são todos calvos, têm um olho preto, outro azul, as cigarras tocam suas músicas em grandes discos, as laranjeiras se curvam para oferecer suas laranjas aos passantes. Vindo de Cambacará, Raimundo estranha as vestimentas dos garotos, iguais às teias que viu serem fabricadas pelas aranhas vermelhas, e se vê dentro de um mundo inteiramente plástico, capaz de se comprimir e descomprimir para lhe oferecer conforto físico, conforto moral. Integrando-se gradativamente à terra, Raimundo vai conhecendo Pirenco, Talima, Sira, um menino-anão e Caralâmpia, a menina que virou princesa e tem nos braços pulseiras de cobra coral, no peito um broche de vaga-lume.

Procurando sempre os maquinismos ocultos, preocupado com a lição de geografia, e retificando a lição de geografia, Raimundo atravessa essa terra toda feita de diferenças, onde se reordenam alguns conceitos que possuía. Apesar de ser insistentemente convidado a ficar em Tatipirun, volta para Cambacará. Tendo partido com o dever de geografia física por fazer, volta com a clareza de uma geografia política a construir, e a lição de aristocracia que lá fora procurar.

A novela de Graciliano aponta para a transformação, conseguida com o esforço de quem nada, enfrentando a corrente. Afligido pela zombaria dos outros meninos, que atacam nele aquilo que é diferente, Raimundo se põe, como demiurgo, a fazer o mundo.

Graciliano, que teve sua Pequena História de República censurada pelo Estado Novo, constrói uma experiência de liberdade em sua narrativa. Nos anos 30 e 40, na vigência da ditadura do Estado Novo, Caralâmpia, menina inquietante e querida de todos, que viaja e traz notícias de outras terras, consolando os que choram, deve ter sido tomada como alegoria da liberdade. A menos de dois anos do início de um novo milênio, neste mundo que se desenha de novo, em vários planos e a cada momento, Caralâmpia tem sem dúvida a cara limpa da Tolerância.

Graciliano, tido pela crítica como um dos maiores escritores de língua portuguesa, é das presenças mais necessárias na biblioteca do leitor brasileiro, tanto o jovem quanto o adulto. Antecipando a leitura futura de Vidas Secas, São Bernardo, Infância, Memórias Do Cárcere, este volume delicado fala dos valores da democracia, aí se incluindo a fabulação e o imaginário como valores reais nas construções políticas do homem. O imaginário aparece como o espaço preexistente à realização da democracia: não se faz uma república sem antes sonhá-la. Não vai se fazer bem a república se no sonho que a concebe não estiverem também presentes a crítica, o humor, o non sense.

Nessa construção, o ilustrador tem papel fundamental. Na presente edição, Roger Mello empresta seu talento proteiforme ao clássico de Graciliano. Os traços dançarinos e instigantes dão corpo à fantasia, prendem à página os olhos do leitor, para soltá-los em seguida mais livres, plásticos e inquietos. Na nobreza do negro sobre a página branca, a delicada interpretação pictórica provoca o pensamento viajante, requisito imprescindível à projeção de qualquer idéia. Nos traços reconhecidamente brasileiros de Roger pulsa uma fulguração universal que se põe junto do desejo de viajar por outras culturas, reconhecer o mapa da diferença, construir a paz e o respeito cujo desejo é alimentado por boa parte da humanidade.

Nilma Gonçalves Lacerda

PARECER 2

Um dos grandes escritores brasileiros conhecido principalmente por seus romances"Caetés", "São Bernardo", "Angústia" e "Vidas Secas" e por suas "Memórias do Cárcere", o velho Graça, como era chamado pelos amigos, escreveu dois livros para o público infantil: A terra dos meninos pelados um tema de sua criação e mais tarde "Histórias de Alexandre" baseado no folclore de sua terra, Alagoas.

A "Terra dos meninos pelados" foi um dos vários textos premiados no célebre Concurso do Ministério da Educação de 1937 que premiou também Marques Rebelo, Luiz Jardim e Santa Rosa. Editado em 1939 pela Globo, de Porto Alegre, foi mais tarde incluído pela Martins no volume intitulado "Alexandre e outros heróis".

O tema é o do menino rejeitado por ser diferente dos demais: Raimundo tinha um olho preto e outro azul e a cabeça pelada. A criançada caçoava dele gritando pelado!

Acabou se acostumando e adotando o nome: Dr. Raimundo Pelado. Os garotos fugiam dele. Triste, ele fechava os olhos e refugiava-se no sonho, no país de Tatipirun onde não há cabelo e as pessoas todas têm um olho preto e outro azul.

Sua viagem por esse país é o desenvolvimento da história. Os bichos e até as coisas têm olhos de cores diferentes; não há chuva, não há noite, não faz calor nem frio, as árvores conversam, as aranhas tecem as roupas dos meninos.

O estilo de Graciliano Ramos é conhecido pelo despojamento, secura mesmo, de uma economia total de adjetivos, onde as palavras são empregadas por sua absoluta necessidade no sentido da frase.

Esta edição traz ilustrações de Roger Mello, um brasileiro que se formou em Comunicação Visual e revelou-se como ilustrador na década de 90 recebendo os maiores prêmios brasileiros como o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro e o de Melhor Ilustração da FNLIJ entre outros.

Seu trabalho que podemos apreciar na edição da Record, é composto por pequenas vinhetas e desenhos a traço delicados e de grande sensibilidade. Especialmente atraente é o desenho da capa em cores fortes e contrastantes.

A terra dos meninos pelados permite à criança já leitora aproximar-se da obra de um dos mais importantes autores de nosso país.

Laura Sandroni

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