• Traço e prosa

    • Editora Cosac Naify
    • Autor(a) Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu
    • Premiação Prêmio FNLIJ 2013 Teórico
Segunda, 26 Agosto 2013 12:11

Alice no país das maravilhas

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De Lewis Caroll. Trad. Ana Maria Machado. São Paulo: Ática, 1997. 136p. De Lewis Caroll. Trad. Ana Maria Machado. São Paulo: Ática, 1997. 136p.

De Lewis Caroll. Trad. Ana Maria Machado. São Paulo: Ática, 1997. 136p. 

 

Alice no país das maravilhas. Lewis Caroll. Il. Jô Oliveira. Trad. Ana Maria Machado. São Paulo:Ática,1997. 136p. (16,7 x 23,6 x 0,5cm - 240gr.)

  • Láurea "Altamente Recomendável - Tradução Criança" - FNLIJ - 1997

PARECER 1

Alice no país das maravilhas é uma obra cujo fundamento é o realismo mágico. Nela, o fantástico, o abstrato, se fundem com o mundo real concreto. Alice, a protagonista da história, é uma menina que vive as aventuras mais disparatadas num espaço onírico, podemos mesmo dizer, surreal. As personagens com quem se depara em suas incursões no universo maravilhoso da narrativa são, em sua maioria, animais personificados ou, ainda, objetos com forma humana e seres fantásticos. Desses encontros originam-se diálogos e situações que caracterizam-se pelo nonsense, pelo inusitado, pelo quase absurdo. Talvez esteja aí o fascínio que essa narrativa exerce não só sobre crianças, como também sobre jovens e adultos.

Sem nenhum ranço moralizante ou de cunho didático, a obra prima pela transgressão à lógica linear e comum a que estamos acostumados, dando lugar a uma lógica invertida, às avessas, lógica esta construída a partir da subversão das formas lingüísticas. O humor tem presença constante na narrativa, em que também se encontram críticas ora sutis, ora irônicas ou até mesmo mordazes, à sociedade da época e a algumas de suas instituições, entre elas a escola.

O texto de Lewis Carroll, de caráter universal e mais atual do que nunca, já foi vertido algumas vezes para a língua portuguesa. No Brasil, contamos com edições adaptadas do original que não estão à altura da excelência da obra, em geral por lhe suprimirem trechos e personagens ou por não considerarem os jogos lingüísticos presentes no original. Algumas edições buscaram uma tradução mais fidedigna, mas, como os jogos de linguagem são o principal recurso estético utilizado pelo autor, o resultado dessas traduções nem sempre se mostrou satisfatório para o público infanto-juvenil, demandando conhecimentos de um leitor mais maduro e experiente.

O grande mérito desta edição de Alice no país das maravilhas é a tradução bem cuidada e primorosa de Ana Maria Machado. Com sua sensibilidade de escritora e sua competência de pesquisadora, realizou uma tradução que alcança o público de crianças e jovens sem recorrer a estratégias que levariam à facilitação, redução ou empobrecimento do projeto original do autor. Seu grande desafio foi o de transpor para a língua portuguesa os variados jogos lingüísticos que compõem a narrativa - jogos de sonoridade com palavras e expressões responsáveis por alterações de sentido, paródias a textos, autorais ou não, de domínio público, brincadeiras com expressões idiomáticas, entre outros - e que constituem o processo de nonsense destacado na obra. Assim, Ana Maria Machado busca correspondências para esses jogos de linguagem no português do Brasil, oferecendo-nos um texto integral e criativo que faz referências a cantigas populares, acalantos, poemas de Vinícius de Moraes e Gonçalves Dias, parodiando-os, como fizera Carroll com os textos ingleses. Quem ganha com isto é o leitor criança e jovem que tem a oportunidade de fruição e compreensão mais plenas ao ler a história.

As ilustrações de Jô de Oliveira, realizadas a partir da técnica de xilogravura, bastante difundida por intermédio das publicações de literatura de cordel, imprimem um caráter bem brasileiro à edição. As imagens em preto-e-branco permitem-nos, ainda, dar asas à imaginação e descobrir novas possibilidades de construção de imagens a partir da associação entre texto escrito e ilustrações.

A ótima qualidade do projeto gráfico da obra é a confirmação definitiva da excelência desta edição de Alice no país das maravilhas.

Margareth Mattos - PROALE/UFF

PARECER 2

Alice no país das maravilhas, do inglês Lewis Carroll, é um clássico da literatura universal que tem fascinado gerações de leitores desde a sua primeira versão em 1862. A atemporalidade da obra se prende a qualidade de sua construção literária sedimentada pelo criativo trabalho da linguagem, matéria-prima da literatura.

O livro é um convite a um fantástico passeio pelo reino da fantasia onde tudo pode acontecer. O estranhamento do itinerário percorrido por Alice seduz o leitor e sinaliza para vários questionamentos. Como obra de arte, o texto é aberto a várias hipóteses de leituras e uma das questões ambíguas que abre e fecha a narrativa é quanto ao porto de partida das aventuras vividas, na ficção, por Alice: seria o imaginário ou o sonho, a origem desse maravilhoso passeio pelo país da fantasia? Sem dúvida, o maravilhoso habita o País das Maravilhas e Alice é sua hóspede temporária, viajando na trilha surrealista de uma passagem da realidade, que se altera quando ela penetra na toca do coelho, para a fantasia, onde as coisas acontecem numa outra lógica.

É na trilha do imaginário popular brasileiro que segue a narrativa de Alice no país das maravilhas na tradução de Ana Maria Machado. Este caminho de brasilidade marca a diferença fundamental dessa obra em relação "as várias Alices em português", conforme explica a escritora que, ainda, esclarece: "procuramos fazer com que todos os poemas-paródia do texto fossem fáceis de identificar (como eram para o leitor britânico de seu tempo), mesmo sabendo que para isso fosse necessário mudar as referências iniciais a aproximá-las do leitor brasileiro jovem de final deste século XX".

Os jogos de linguagem são, assim, o carro-chefe da literatura do inglês Lewis Carroll e, também, podemos acrescentar que esses artifícios metalingüísticos são determinantes da poética modernista brasileira. É esse diálogo intertextual que enriquece a narrativa de Alice no país das maravilhas e destaca a tradução brasileira de Ana Maria Machado na configuração de uma rede textual adaptada ao imaginário popular brasileiro.

Em diálogo com essa atmosfera de brasilidade, o ilustrador pernambucano Jô de Oliveira cria um cordel de imagens na reencenação do clássico inglês da literatura universal. Os desenhos em xilogravuras direcionam o leitor aos folhetos de cordel - literatura peculiar do Nordeste brasileiro. As ilustrações criam uma Alice bem brasileira, passível de identificação por qualquer criança do nosso país.

E, assim, a clássica Alice, surge na contemporaneidade na versão brasileira de dois grandes expoentes da literatura infanto-juvenil, a renomada escritora Ana Maria Machado e o talentoso ilustrador Jô de Oliveira. É uma verdadeira celebração do nacional com o universal. Os artistas brasileiros homenageiam a universalidade da arte inscrevendo o nacional no universal.

Por todos os motivos, acima expostos, é de suma importância a presença dessa obra-prima literária na Biblioteca das Escolas Brasileiras.

Fátima Miguez

Ler 5221 vezes Última modificação em Segunda, 14 Julho 2014 11:56