• Raul da ferrugem azul

    • Editora Salamandra
    • Autor(a) Ana Maria Machado
    • Ilustrador(a) Patrícia Gwinner
    • Premiação Prêmio FNLIJ 1980 Criança
Sexta, 14 Setembro 2018 16:27

Um olhar para dentro da obra de Ana Maria Machado

Assim que soubemos, na quinta-feira, dia 6 de setembro, da manifestação de uma mãe nas redes sociais em relação ao livro “O menino que espiava para dentro”, de Ana Maria Machado, acusando-a de incitar o suicídio, postamos no Facebook o nosso endosso à carta enviada pela editora Global e à declaração do blog Mãe que lê, prestando apoio e solidariedade à autora.

A injustiça cometida contra Ana Maria deixa a todos seus leitores perplexos e preocupados com a atitude de uma mãe que, na melhor das hipóteses, a acusou por desconhecimento da obra da autora e da literatura em geral, somando-se a demonstrações semelhantes de censura às expressões artísticas que temos assistido, também perplexos.

Não é a primeira vez que os livros sofrem esse tipo de ataque, o que deixa nossos corações e mentes apreensivos diante da perspectiva de cerceamento da liberdade de pensar e criar.

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Há quase 50 anos escrevendo para crianças, e com mais de 100 títulos publicados com reconhecimento nacional e internacional de diversas instituições pela qualidade de seu trabalho, vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen do IBBY, em 2000 e, em 2012, do Prêmio Ibero-Americano de Literatura Infantil e Juvenil da Fundação SM, além de outros prêmios importantes, Ana Maria não pode ser alvo de uma acusação tão grave. Somos testemunhas da imensidão de professores, pais e estudiosos de todo o país, como no exterior, que a convidam para visitar escolas e conversar com alunos por apreciarem suas histórias.

A manifestação dessa mãe, preocupada com a educação de seu filho, talvez sinalize a ausência da arte no cotidiano das escolas e das famílias, no qual deveria estar presente por meio da prática diária da leitura de livros de literatura, partilhada com filhos e alunos como ponte para o diálogo e a convivência respeitosa. Só a literatura pode tanto.

Que as manifestações de apoio à Ana Maria Machado, vindas de todos os cantos do país, sirvam como um alerta aos pais e professores para a necessidade e importância de defender a literatura como um direito de todos – como ela mesma o faz, há décadas, em suas palestras, publicadas em livros – por meio de uma educação que valorize a arte, criando oportunidade de encontros de discussão de ideias e respeito pelo diferente, base para a formação da cidadania.

Ana Maria recebeu e continua recebendo a solidariedade de inúmeros leitores, que se colocaram ao lado da autora para expressar a perplexidade diante dos ataques à sua obra demonstrando a sua importância e que divulgamos algumas, abaixo.

Leia aqui também o artigo de Marisa Lajolo sobre o livro de Ana.

Repercussão na mídia:

Tentativas de Fahrenheit, de Marina Colasanti

O Globo - Dia 11 de outubro de 2018 - Arnaldo Niskier

Revista Veja

Revista Crescer - Dia 10/09/2018 - Por Aline Dini

Globo - Dia 06/09/2018 - Por Paula Autran

Publish News - Dia 10/09/2018 - Redação

Malu Mergulho Literário

Padmini Bamboleio

Paula e Bruna @leromundo

Carol Conversa de Quintal

Maria Amélia - Blog do Livrinho

Gisele e Cathe - Kids indoors - Dicas para entreter crianças "presas" em casa

Eunicia @euniciaf

Julia @tempolendo

Rosa - Casa da  Rosinha

Anna @sobreissoeaquilo

Nedjma @contaoutravez

Emília - Mãe que lê

Alessandra - Alessandra Sementinha Literária

Nina - Mar de Histórias

Daisy - A Cigarra e A Formiga

Cinthya Leiturarte

Vivian Casa Ipê

Lunetas

 

Carta de apoio assinada por vários blogs voltados para literatura infantil:

CARTA DE APOIO A ANA MARIA MACHADO E À LITERATURA – 10 de setembro

Em virtude dos recentes posts e mensagens que alegam incitação ao suicídio no livro infantil “O menino que espiava pra dentro”, da consagrada autora Ana Maria Machado, e também por outros casos semelhantes que vêm acontecendo ultimamente, nós, incentivadoras digitais, amantes e estudiosas da Literatura Infantil e Juvenil, gostaríamos de falar um pouco sobre o assunto.

Em primeiro lugar, acreditamos que uma obra literária não pode ser lida ou interpretada a partir de um fragmento descontextualizado. É necessário compreender o texto por inteiro e com isso a mensagem completa do autor. Uma descontextualização dessas pode gerar ruídos que denunciam a formação de leitores deficitária deste país, mostrando como a literatura é mal interpretada, infelizmente.

O livro narra a história de um menino cheio de imaginação, que ama explorar seu mundo interior. Numa intertextualidade com contos de fadas clássicos, ele brinca de ser um “Belo adormecido” ou “Branco de neve", querendo ficar um tempo mais longo no mundo da imaginação. Assim, usa o mesmo recurso da história da Branca de Neve contada pelos Irmãos Grimm originalmente: engasga com uma maçã e vai para o mundo da imaginação, para depois “desengasgar” e voltar ao mundo “real”. Reparem que a autora refere-se à versão mais antiga e anterior à versão da Disney, em que a personagem engole uma maçã envenenada e é acordada por um príncipe.

É importante frisar dois pontos do final da história:

1) No fim do livro, ele é acordado pela mãe. Fica claro que a aventura foi um sonho do menino e não um caminho real para chegar ao mundo da imaginação.

2) Mesmo com as maravilhas do seu mundo interior, no fim, a aventura não dá certo, pois tudo fica escuro, já que ele não tinha mais o mundo exterior para alimentá-lo. Quando ele acorda do sonho, portanto, percebe o valor de viver a vida para além da imaginação. E isso fica claro no texto.

Contudo, se mesmo assim a família considerar o texto arriscado, não há problemas, basta não o incluir em seu acervo. Mas é necessário abrir-se para a possibilidade de outras pessoas interpretarem de maneira diferente. Outras famílias podem achar, por exemplo, que o livro fala sobre a beleza do mundo da imaginação que pode ser encontrada dentro de cada um, num equilíbrio imprescindível entre o mundo interior e o exterior.

Com esse ponto, ressaltamos a importância de o adulto acompanhar as leituras feitas pela criança e o grande valor da MEDIAÇÃO DE LEITURA e do DIÁLOGO. A literatura em sua essência não se propõe a ter finalidade educativa, obras literárias não devem ser compreendidas como obras didáticas. Em um livro de histórias (note bem: não nos referimos a didáticos ou paradidáticos), a narrativa impera e não há intenção de se ensinar qualquer coisa que seja. Bons livros nos levam a boas reflexões.

"O menino que espiava pra dentro" foi publicado em 1983 e não estamos cientes de qualquer relato de criança que tenha se inspirado na obra para cometer qualquer ato contra a própria vida.

E, mesmo que o livro abordasse um tema tão delicado (o que não acontece!), afirmar que ele faz uma apologia ao suicídio é o mesmo que dizer que os contos das Mil e Uma Noites estimulam a violência ou que As Aventuras de Pinóquio incitariam à mentira.

Trazemos a público neste momento, assim, nosso apoio à Ana Maria Machado e a tantos outros autores que têm suas obras mal interpretadas e nos posicionamos contra todo e qualquer tipo de movimento que possa afastar ainda mais a Literatura Infantil da sua vocação maior: a arte

Assinado:

Isabella @nacordabamba, Nedjma @contaoutravez, Padmini @bamboleio_literatura, Paula e Bruna @ler_o_mundo, Carol @conversadequintal, Gisele e Cathe @kidsindoors, Nícia @euniciaf, Malu @mergulho.literario Anna @sobreissoeaquilo, Emília @maequele, Amélia @blogdolivrinho, Rosa @casa_da_rosinha, Nina @mardehistorias, Alessandra @ale_sementinhaliteraria, Cinthya @leiturarte_rj, Julia @tempolendo, Daisy @acigarraeaformiga, Jaqueline @lendojunto e Regiane @veredasnoinsta