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Quinta, 29 Agosto 2013 20:15

O sabiá e a girafa

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De Leo Cunha. Il. Graça Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. 32p. De Leo Cunha. Il. Graça Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. 32p.

De Leo Cunha. Il. Graça Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. 32p. 

 

O Sabiá e a Girafa. .Leo Cunha. Il. Graça Lima. Rio de Janeiro:Nova Fronteira,1993. 32p. (14 x 28 x 0,3cm - 90 gr.)

  • Prêmio Revelação - Autor - FNLIJ - 1993
  • Prêmio Jabuti - Categoria Ilustração - 1994

PARECER 1

Aprender a lidar com as dificuldades, mesmo aquelas inerentes à própria espécie, trabalhar os desejos e a frustração de não conseguir realizá-los; esgarçar os limites para alcançar objetivos pessoais sem abrir mão do sonho é o tema de O sabiá e a girafa.

O sabiá vive às voltas com a dificuldade de voar, é persistente nas inúmeras tentativas de reproduzir o que é natural aos de sua espécie: voar. O canto magestoso de tenor que o diferencia dos demais de sua espécie é o veículo de comunicação dos seus sentimentos com o mundo. As tentativas frustradas não minam o desejo maior: o sonho de voar.

Fecha-se a primeira parte da história e entra em cena a girafa. Figura esguia, capaz de ver o mundo das alturas, de uma perspectiva diferente dos animais pequenos como o sabiá; muda, como é comum aos de sua espécie, mas desejosa de cantar como os pássaros.

Na terceira parte da história, dá-se o encontro dos dois animais quando o sabiá cai na cabeça da girafa e, maravilhado com a visão do mundo que o cerca a cada virada de cabeça da girafa, começa a cantar. A girafa oferece ao dono do canto que gostaria de ter, sua cabeça como moradia e os dois se completam.

O texto em prosa poética, carregado de grande lirismo e de ludismo verbal é o suporte ideal para abordar tema tão delicado: a eterna luta entre os desejos e os limites de cada ser, travestida aqui na pele de dois animais distintos: o sabiá e a girafa.

O texto possibilita uma pluralidade de leituras: a convivência entre os diferentes, a aceitação dos limites, a luta pela a concretização de um ideal, temas tão inerentes à existência humana, o que amplia o universo do leitor implícito a quem supostamente se destina a obra.

A ilustração em duas cores - preto e amarelo- merece comentário à parte. A ilustradora explora uma gama variada de recursos possíveis, contrapõe o traço suave quase etéreo do sabiá, num degradeé de matizes que vai do branco, passando pelo cinza suave até o negro, chegando ao preto e branco da girafa. Trabalhando com a chapada de cor e o desenho a lápis de cor , passa ao leitor as diferenças entre o agigantamento da girafa e a fragilidade do sabiá, ao selecionar detalhes, partes do corpo da girafa, fragmentando a ilustração do animal em duas páginas: parte do corpo numa página e a cabeça na outra. Interessante também é ressaltar a seqüencialização e a dinâmica que esse recurso de ilustração dá ao texto no manuseio das páginas.

Outro aspecto a ressaltar é o jogo de fundo e forma estabelecido pela escolha de cores das páginas que servem de apoio à ilustração, explorando o preto, o branco e os matizes do amarelo. A cor amarela emite luz e o creme, uma porcentagem da retícula amarela, dá a suavidade da luz do sol à poesia do texto, enquanto o impacto do uso do preto cria o improvável. A ilustradora procurou trabalhar com a linguagem visual do design, vendo a ilustração do livro como um todo, pensando o livro como um objeto, um produto, em que texto e linguagem visual se complementam.

O formato do livro retangular e em sentido vertical e a capa colorida com o vermelho, ilustrada com o pescoço da girafa e o sabiá pousado na sua cabeça, chamam a atenção do leitor, convidando-o à leitura. Texto, ilustração e projeto gráfico formam um casamento perfeito.

Cronista, escritor, tradutor e professor, Leo Cunha vem dando continuidade a sua trajetória literária, arrematando outros prêmios por livros publicados posteriormente. Graça Lima também se insere na nova safra, dando continuidade à geração anterior de bons autores e ilustradores da literatura infanto-juvenil brasileira.

Rosa Cuba Riche

PARECER 2

A história é do sabiá, também da girafa, bem como do encontro entre o sabiá e a girafa. Ou melhor talvez a história trate das limitações que cada um deles tinham: o sabiá da história não sabia voar, mas, cantava que era uma maravilha e acredita que um dia, ainda, conseguiria voar. A girafa dessa história, era diferente, sonhava poder cantar e tentava imitar o azulão, o rouxinol, a cotovia, mas a voz não derramava. E ela também jurava: um dia eu consigo cantar.

E o encontro entre o sabiá e a girafa se deu por acaso, com os dois lamentando suas fragilidade e do encontro uma união que trouxe ao sabiá as alturas e à girafa o canto eterno.

O texto de Leo Cunha transborda poesia e metáforas em torno das limitações da condição humana. A leveza do texto nos transporta para uma associação rica das fragilidades individuais e das várias possibilidades de superação. Essa relação proposta pela narrativa, discutida com tanta delicadez, desempenha uma função fundamental na formação integral de uma criança, uma vez que a noção de limites é apresentada à partir de situações adequadas ao mundo dos personagens.

Graça Lima, a ilustradora, arrebata o leitor com seus desenhos em preto, branco, cinza e tonalidades de amarelo, conseguindo revelar em suas imagens a agonia dos personagens.

O projeto gráfico é perfeito, o formato do livro é longo e estreito como uma girafa e delicado como um sabiá.

Tanto o autor como a ilustradora representam uma nova safra de autores infanto juvenis brasileiro e demonstram que herdaram a competência dos pioneiros na qualidade do que têm produzido. Podem, portanto, compor um acervo básico de uma biblioteca para crianças e jovens brasileiras.

Graça Monteiro Castro

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