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Monday, 26 August 2013 12:53

Bisa Bia, Bisa Bel

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De Ana Maria Machado. Il. Regina Yolanda. 36ª ed. Rio de Janeiro: Salamandra, 1988. 56p. De Ana Maria Machado. Il. Regina Yolanda. 36ª ed. Rio de Janeiro: Salamandra, 1988. 56p.

De Ana Maria Machado. Il. Regina Yolanda. 36ª ed. Rio de Janeiro: Salamandra, 1988. 56p. 

 

Bisa Bia, Bisa Bel. Ana Maria Machado. Il. Regina Yolanda. 36ª ed. Rio de Janeiro:Salamandra,1998. 56p.
(15,8 x 23 x 0,5cm - 150gr.) OBS.: Capa de Regina Yolanda

  • Prêmio Maioridade Crefisul - 1981 (texto original)
  • Prêmio Orígenes Lessa -"O Melhor Para o Jovem" - FNLIJ - 1982
  • Prêmio APCA - Categoria Juvenil - 1982
  • Prêmio Jabuti - Categoria Infantil - 1983
  • Lista de Honra do IBBY - Indicação de Autor - 1984
  • Lista de Honra do IBBY - Indicação de Ilustrador - 1984
  • Projeto Recriança/FNLIJ - 1986

PARECER 1

Trançando passado, presente e futuro no traçado literário de Bisa Bia Bisa Bel, a escritora Ana Maria Machado, tecelã de palavras, costura histórias e memórias entre tramas e urdiduras narrativas de profundos significados.

Como uma caixa de segredos bem guardados, a história da menina Isabel é aberta ao leitor de forma mágica. Com o fio das lembranças, o passado da bisavó da menina Isabel chega ao presente, através de um retrato da menina Beatriz. Bisa Bia no retrato acende a imaginação da menina que, a partir desse encontro afetivo, altera sua rotina. A bisavó passa a fazer parte do dia-a-dia de Bel que a leva, em retrato, para à escola, para os passeios e brincadeiras na rua. Tatuada no interior da menina, a "bivó" assume uma identidade própria e habita os pensamentos, as emoções e as recordações de antigamente que voltam ao presente em calorosos diálogos. Tecendo longas descobertas, os traços do passado e do presente vão se alternando como as batidas pendulares do tempo, ora caindo para o passado, ora voltando para o presente. E o tempo se mistura, se reúne, se embaralha na vida da jovem Isabel a recolher e confrontar experiências das duas épocas.

Duas gerações não bastam na tessitura do tempo e a narrativa de Ana Maria Machado amplia essa aprendizagem iniciática da menina Isabel. Uma nova voz passa a ecoar no interior de Bel e um novo ciclo se inaugura na simbologia da passagem do tempo, que a personagem manifesta. Bel passa, então, a abrigar o futuro no seu presente de menina adolescente. Beta, bisneta de Bel, habitante de um outro século, se antecipa na trajetória de vida temporal de Isabel.

Bisa Bia, Neta Beta e Isabel reunidas no mesmo lugar com as marcas do tempo a separar e a formar uma "trança de gente" bordada no tecido literário de Ana Maria Machado. Um encontro de gerações, "dos bisavós aos bisnetos", sugere comparações, confrontos, descobertas, negações, aceitações, conflitos. Isabel incorpora, simbolicamente, esse diálogo conflitante da força mítica do tempo que traz no presente os ensinamentos do passado, antecipando, também, as conquistas do futuro. Passado, presente e futuro, um ponto adiante do outro, compõem os riscos do bordado da existência nessa sucessão infinita de experiências acumuladas, conquistadas e aguardadas pela história da humanidade.

O livro Bisa Bia Bisa Bel é um campeão de prêmios. As ilustrações de Regina Yolanda, também premiadas, são uma arte à parte que levam o leitor ao devaneio estético.

O livro, sem dúvida, merece lugar de destaque nas Bibliotecas das escolas pela primorosa qualidade e por ser obra de uma das maiores escritoras brasileiras, a premiada Ana Maria Machado.

Fátima Miguez

PARECER 2

Bisa Bia Bisa Bel une as três pontas do tempo: presente, passado e futuro no tempo mítico da existência; entre a Bisa Bia e a neta Beta, convive Bel, a neta de Bia e a futura bisavó de Beta.

Desse convívio, a menina recupera e redescobre o passado. Redimensiona o futuro e aprende a conviver consigo mesma no presente.

Em cada encontro da menina com a bisavó e com sua futura neta, um contraponto de valores sociais, políticos e econômicos se descortina. É a História que marcha deixando marcas na transformação dos costumes, no encontro de gerações que se complementam, mas não se chocam. Tempos e gerações que dialogam num jogo de fantasia e realidade.

Um olhar feminino investiga seu tempo, recuperando fatos, antecipando sonhos, unindo os fios da existência aos fios da História, questionando os papéis sociais do Homem e da Mulher, o lugar da escola, "ainda amarrada ao passado", passando a limpo hábitos, costumes e valores.

Publicado em 1982, a obra carrega as marcas deixadas pelo exílio, o alto preço pago pelos que não abriram mão do sonho de construir novos tempos numa sociedade mais justa. A utopia da construção de um mundo melhor faz o avô existir dentro do neto; é a sabedoria dos velhos somando forças para deixar o mundo melhor para a geração futura.

A narrativa das três mulheres que convivem numa só vai enredando o leitor até o final, momento em que a ficção mergulha fundo na realidade de tempos difíceis (década de 1970), valorizando o papel que cada um desempenhou.

A delicadeza dos traços da ilustração em preto e branco abre espaço para o descanso do olhar, ajudando a recuperar objetos antigos, perdidos no tempo e tão distantes do pequeno leitor. Um inventário do mobiliário, dos objetos de uso pessoal e do vestuário colaboram para criar o imaginário da época e melhor entender hábitos, costumes e comportamentos.

Ana Maria Machado ao lado de Ruth Rocha, Lygia Bojunga Nunes e outros autores trazem para a literatura infanto-juvenil, um novo ponto de vista, mergulham a ficção na realidade, discutem, questionam e transformam essa realidade.

Em 1981, a autora conquistou o Prêmio Casa de las Américas de Cuba e o Prêmio de Melhor Autor Juvenil de 1981 da APCA com a obra De olho nas penas, um mergulho na formação da identidade do povo latino-americano.

A preocupação com as questões existenciais, os ritos de passagem (Bem do seu tamanho) e com a identidade brasileira percorre toda a obra vasta e premiada da autora.

Rosa Cuba Riche

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